Memorial Adauto Botelho

Histórico do Adauto Botelho

Prof. Dr. Éder Mendes de Paula

[Imagens: Rosa Berardo. 1984.]

Professor do Curso de História da Universidade Federal de Jataí. Coordenador do Grupo de Estudos e Pesquisas em História da Saúde-Nise da Silveira/Cnpq.

Às 12 horas em Goiânia no dia 4 de abril de 1954, aterrissava uma comitiva composta por oito homens e uma mulher de importantes cargos. A visita tinha um caráter oficial, uma vez que chegaram em um avião da Força Aérea Brasileira e tinham em seu dia uma agenda repleta de encontros e discursos até o momento mais importante no início da noite.

A presença de tal comitiva era esperada para a inauguração de um projeto de governo, que visava não apenas estabelecer aspectos “modernos” para a saúde em Goiás, mas de validar uma cidade, uma nova capital inaugurada em 1942. No avião se encontravam: Miguel Couto Filho, muitas vezes conhecido como Miguel Couto. Carioca, nascido na exata virada do século XIX para o XX, no ano de 1900. Seu contexto de infância é alardeado por ideias científicas deterministas, marcadas por convicções de que específicas “raças” eram mais propensas aos crimes, vícios e doenças que outras. Participou também da constituinte de 1946 elaborando o projeto de Emenda Constitucional 3.165[1] que dizia: “É proibida a entrada no país de imigrantes japoneses de qualquer idade e de qualquer procedência”. O projeto tinha bases eugênicas e também do darwinismo social, que o mesmo deveria ter conhecimento desde criança a partir das filiações científicas do seu pai.

            Ainda na comitiva estava, Arlindo de Assis diretor do Departamento Nacional de Saúde entre 1951-1954. O médico baiano radicado no Rio de Janeiro teve seu nome encrustado na História da Medicina brasileira ao receber, em 1925[2], do bacteriologista uruguaio Julio Elvio Moreau uma amostra do bacilo atenuado de Calmette e Guérin, com a receita de fabricação da vacina. Assim, seguindo com pesquisas, acompanhou o primeiro teste de BCG nacional, fazendo parte da Liga Brasileira contra a Tuberculose e, posteriormente, se dedicando à produção da vacina. Thomaz Rôsas que era naquele momento diretor do Serviço Nacional da Lepra. Gabriel Marques Melset, então Secretário do Gabinete do Ministro. O deputado federal Paulo Fleury, nascido em dezesseis de outubro de mil novecentos e onze em Goiás, estudou no Liceu e cursou Direito na Universidade de Minas Gerais em 1932[3]. Oriundo da mesma família estava presente também José Fleury, nascido em Goiás no dia vinte e seis de setembro de mil novecentos e treze, tendo se graduado médico na Faculdade Nacional de Medicina em 1938[4]. A única mulher presente na comitiva – e nomeada por último pelos jornais (o que é bastante significativo) – era Eunice Weaver, presidente da Confederação de Associação do Combate à Lepra.

            Essa comitiva foi tratada com toda pompa e circunstância sendo recebida pelo governador e, estas presenças, tinham como intenção participar do ato solene de inauguração do sanatório que representava um projeto idealizado pelo então diretor do Serviço Nacional de Doenças Mentais, Adauto Botelho. Era uma política que tinha como objetivo, inaugurar cerca de 8 grandes hospitais pelo Brasil sendo o de Goiânia entregue à população no dia 04 de abril de 1954.

            O próprio Adauto Botelho já se encontrava em Goiânia naquela ocasião, acompanhando os preparativos para iniciar o funcionamento do hospital que levava o seu nome. Naquelas tarde e noite entre banquetes e drinks foram realizados discursos que versavam sobre a importância da construção do nosocômio em Goiânia, em como esse processo era uma forma de “redescobrir” os sertões, a partir de uma política do governo de assistir aos chamados doentes mentais.

            A própria composição da comitiva pode lançar luz aos objetivos a que se destinava a instituição naquele contexto, um prédio grande que teria sido inaugurado com intenção de funcionar como um hospital-colônia com “tratamentos” relacionados ao trabalho agrícola, entre outras ocupações. É importante acentuar que este modelo já vinha sendo aplicado e não se mostrava eficaz, constituindo e perpetuando um aspecto hospitalocêntrico focado na grande internação por períodos muitas vezes indeterminados, focado apenas na presença do médico-psiquiatra e seu saber como condutores do processo paciente-cura.

            O espaço do sanatório passou a ser utilizado não apenas para tratamento, é curioso observar uma mistura de sentidos ao percebermos que um ano após a inauguração do hospital já encontramos pedido para o encaminhamento de presos. Duas questões se colocam aqui: os presos doentes que precisavam de atendimento e aqueles presos por determinados comportamentos e que se pediam encaminhamentos para o sanatório.

            A grande questão é observar como a instituição vai obedecendo a determinados aspectos de auxiliar no controle social, no controle do comportamento, não é processo de disciplinarização especificamente, mas na possiblidade de ser, em conjunto com o presídio, um espaço para limpeza do tecido social através do confinamento.

            O importante a ser levantado aqui é a proximidade entre a instituição psiquiátrica e as delegacias e/ou presídio, estabelecendo uma possibilidade de leitura do sanatório como também um espaço para abrigar os presidiários sem a devida estrutura para o feito.

            Esse período varguista que teve como expoente da saúde mental o Serviço Nacional de Doenças Mentais produziu, 16 mil leitos psiquiátricos a mais no país. Essa estrutura possibilitou o que alguns pesquisadores que, como Fernando Tenório (2001) vão chamar de indústria da loucura, com bastante presença durante as décadas de 1960 e 1970.

É preciso frisar, no entanto, que no governo JK a ampliação dos leitos psiquiátricos tem continuidade. Em pesquisa realizada por André Luiz de Carvalho Braga (O SERVIÇO NACIONAL DE DOENÇAS MENTAIS NO GOVERNO JK: A ASSISTÊNCIA PSIQUIÁTRICA PARA O DISTRITO FEDERAL, 2013) fica demonstrado o avanço das instituições através dos demonstrativos financeiros das verbas repassadas aos estados via convênios. O pesquisador elenca uma série de quadros com dados do Dinsam (Divisão Nacional de Saúde Mental), apresentando a quantia que dizia respeito ao governo federal e a cada ente federado, o estado de Goiás aparece com dois contratos entre 1956 e 1959.

            Ao comparar a série de repasses o autor constatou que já no início do governo JK houve um aumento das verbas em relação ao período de Getúlio Vargas em 64,9%, “Em 1960, último ano da administração Kubitscheck, o aumento nos valores investidos nos convênios de obras na área psiquiátrica alcançou 350% em relação 1956, primeiro ano de governo JK. ” (BRAGA, 2013, p. 79)

            A política de saúde mental foi continuada e ampliada, mas não no sentido de atendimento psicossocial, mas garantindo espaços para a internação e confinamento. Expandir as instituições é aumentar consideravelmente o número de leitos e é importante ressaltar que as verbas não eram direcionadas apenas a estes sanatórios do Estado.

Na década seguinte, com a Ditadura Militar muitos espaços foram aparelhados para utilização por parte do governo, fortalecendo o braço opressor sobre a população e não foi diferente com os manicômios. Em 14 de Junho de 2021 foi publicado no site de notícias uol, a reportagem com o seguinte título: “Da tortura à loucura: ditadura internou 24 presos políticos em manicômios. ” Na reportagem, a jornalista Amanda Rossi realiza um levantamento sinalizando que o número de fatos pode ser maior, identificando casos no DF, Pernambuco, Paraíba, São Paulo, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Rio de Janeiro e Ceará.

Sim, o número de casos pode ser maior, em Goiás temos o caso de Pawel Gutko, radicado de guerra polonês no estado de Goiás que foi preso, torturado e posteriormente internado exatamente no Hospital Psiquiátrico Adauto Botelho[5] em Goiânia. Sobre a internação de Gutko, existe um paradoxo que pode nos levar a imaginar que o mesmo fingiu determinado estado para escapar das torturas ou que realmente após ser torturado e conseguirem o que queriam, os militares o levaram para o sanatório.

De fato, existe um laudo psiquiátrico realizado pelo psiquiatra Geraldo Brasil no ano de 1965 que define um surto de esquizofrenia paranoide, o suficiente para interna-lo.

Examinamos uma pessoa do sexo masculino, cor branca, biótipo lepto-somático, que aparenta a idade cronológica (30 anos). Identifica-se como sendo PAULO GUTKO de nacionalidade polonesa. O contato com o examinado se fez na sede do Batalhão da Guarda Presidencial, em Brasília. Mostra-se calmo, tomando postura correta. As vestes são sujas, mal cuidadas, exalando mal cheiro. Indiferente com sua aparência pois durante o exame, a sua roupa estava aberta, deixando à mostra os órgãos genitais. A fisionomia é estranha. O “rapport” se fez de maneira fácil e cordial, apesar de no início mostrar-se levemente desconfiado. Diz estar bem acomodado, pois o local onde se encontra agora é melhor do que esteve, em Goiânia. Também está satisfeito com seus carcereiros e com a alimentação. Perguntando qual a razão de sua permanência naquele local, no início diz ignorar a causa, pois é inocente. Só após alguma insistência nos revelou acreditar que sua prisão decorra de perseguição de algumas pessoas, as quais não mencionou nomes, que os acusavam, por inveja, por haver conseguido emprego no Departamento Cultural da Universidade Federal de Goiás. O conteúdo de seu pensamento é estereotipado. Faz referência durante toda a entrevista sobre seus estudos de vários livros escritos que serão publicados, sobre Oftalmologia. Informa ter descoberto um aparelho para a cura da cegueira, do astigmatismo e miopia. […] Informa que se comunica com sua irmã Tatiana Gutko (falecida há muitos anos) a todo instante, pois ela está sempre ao seu lado. […] O paciente demonstra durante o exame, facilidade de expressão, ser portador de inteligência normal, sobretudo inteligência gnóstica e com facilidade para criar fantasias. Diante de um quadro tão rico em manifestações psicopatológicas, principalmente nas esferas perceptivas, volitiva e do juízo, julgamos desnecessário e até mesmo supérfluo exames subsidiários ou mantê-lo sob observação mais demorada para elaboração do presente laudo. Conclusão: em se tratando de uma pessoa na terceira década de vida de biótipo lepto-somático, com comemorativos pré-psicóticos de personalidade esquizoide, em virtude do embotamento afetivo, um quadro de delírio sistematizado, da riqueza de alucinações auditivas e visuais, também pelo histórico de seu comportamento na cela (dado ao ato de coprofagia, da existência de solilóquios, risos imotivados, um quadro grave de agripinia e masturbação com exagerada frequência), não temos dúvida em classificar o examinado como portador de um quadro de esquizofrenia paranoide e sugerir a sua internação em Hospital Psiquiátrico. Em 03 de abril de 1965. Prof. Samyr Hifelou. Prof. Dr. Geraldo Brasil. (BORGES, 1965, p. 233, grifo meu)

No entanto, Gutko foi vítima de tortura física e psicológica a partir de uma trama criada pelos militares de que a embaixada chinesa enviava dinheiro para o então governador Mauro Borges, para um levante comunista no estado.

Essas informações obtidas a partir dos martírios de Pawel foram utilizadas para depor o governador e, logo em seguida, o polonês é diagnosticado e internado no Hospital Psiquiátrico Adauto Botelho, de onde não foi possível localizar seus documentos ou prontuário. Então o que levanta a jornalista Amanda Rossi para reportagem do site de notícias uol em 2021, realmente possui número maior, mas o importante é a compreensão e apontamento dos usos políticos dos sanatórios durante da ditadura civil-militar.

No levantamento realizado por Amanda Rossi, aparecem duas possibilidades de internação: a loucura causada pelas torturas ou a internação sem nenhum sintoma, o que transformava o hospício em espaço de tortura, uma vez que a eletroconvulsoterapia ali era legal e considerada um tratamento. Se o sistema das colônias já estava falido, considerado um fracasso e já produzia espaços desumanos como em Barbacena, durante os anos sessenta e setenta assistimos uma proliferação de alugueis de leitos em clínicas privadas que alavancaram o número de internos.

Os hospitais mais antigos não foram fechados, continuaram funcionando de maneira precária, nos hospitais privados assistimos também uma precarização estimulada uma vez que o volume de verbas era de acordo com o número de internos. Esse processo estimulou o foco no modelo hospitalocêntrico e na grande internação, facilitando os usos políticos da instituição no período de intensa repressão política atravessado pelo país.

            Este sistema de alguma forma vigorou e o Adauto Botelho em Goiânia atravessou os anos de 1964 a 1979 acumulando pessoas, auxiliando na busca por uma normalização social a partir de uma determinada ordem vigente até o momento em que algumas rupturas começaram a ecoar. Em todo o mundo a luta pelos Direitos Humanos tornou-se algo bastante almejado após a segunda guerra e foi ainda mais dimensionado ao longo dos anos de 1960 em diversas áreas, seja liberdade sexual, direitos das consideradas minorias, etc.

            Os hospitais psiquiátricos passaram a ser alvo de críticas, assim como o modelo de tratamento da psiquiatria, levando à experiências como a de Basaglia na Itália. No Brasil, não vai ser diferente, pois ao final da década de 1970 coincidindo com o fim o período de transição de um regime ditatorial para a democracia, uma série de denúncias começaram a fazer parte da imprensa.

            Esse movimento que era encabeçado por trabalhadores do setor de saúde mental, familiares e usuários dos serviços lançaram luz à um espaço de violação dos Direitos Humanos que acontecia a anos e era, de alguma forma, simplesmente ignorado. O Movimento do Trabalhadores em Saúde Mental movimentou os anos de 1980 nessa questão, com uma série de eventos: I Conferência Nacional de Saúde Mental em 1987, Encontro Nacional do Movimento de Trabalhadores de Saúde Mental em Bauru também em 1987, Intervenção na Casa de Saúde Anchieta em Santos em 1989.

            Neste período, também na década de 1980 uma então estudante de Jornalismo chamada Rosa Berardo consegue entrar no Hospital Psiquiátrico Adauto Botelho e realizar uma série de fotografias impactantes. Nos dizeres da própria Rosa: “Logo no início de minha formação em Jornalismo decidi fazer uma investigação jornalística no antigo e já extinto Hospital Psiquiátrico Adauto Botelho, em Goiânia. Na época eu participava de um grupo de estudos em psicologia dirigido pela profa. Ms. Lia Pereira Jardim. Nesse Grupo, além das leituras freudianas em psicanálise, Michel Foucault e suas obras como História da Loucura, Vigiar e Punir e História de sexualidade, estudávamos também a luta antimanicomial e autores como o psiquiatra Franco Basaglia que propôs o fechamento de hospitais e asilos psiquiátricos na Itália, servindo de referência para que este movimento se espalhasse pelo mundo. Influenciada por essas leituras, iniciei reportagem no Hospital psiquiátrico. Para conseguir entrar e fazer fotografias no local, me apresentei como estudante do curso de Medicina da UFG. Peguei emprestado do meu irmão um jaleco branco e roupas brancas, ele estudava odontologia na época, e falei com a equipe médica sobre meu projeto de TCC, que seria sobre psiquiatria, especificamente sobre o uso de eletrochoque em pacientes psiquiátricos e também a cirurgia de lobotomia, na época já questionada, mas de forma ilegal, praticada no manicômio. Os médicos e funcionários do hospital permitiram minhas visitas diárias e durante dois meses eu visitei quase todas as alas de pacientes e os acompanhava desde o dia da entrada até a progressiva degeneração de suas condições físicas e mentais devido ao excesso de medicamentos e tratamento desumano. Debaixo do meu enorme jaleco emprestado, meu irmão era maior que eu, escondia minha câmera fotográfica e a usava sempre que os enfermeiros ou enfermeiras não estavam por perto para registrar aquele submundo tão desumano. Ao mesmo tempo que documentei o hospital fiz um estudo comparativo com o “vizinho de muro” dos pacientes, a cavalaria montada de Goiânia. Fui até lá e entrevistei os chefes da polícia montada. A área dedicada aos cavalos, uma chácara com árvores e água corrente, fora desapropriada do hospital psiquiátrico para hospedar os animais, ao passo que os pacientes estavam amontoados em um espaço de cimento em meio a suas fezes, sentados sob o sol que lhes causava queimaduras na pele de até terceiro grau. Nas entrevistas com os policiais descobri o investimento no gasto diário com um cavalo, e do outro lado, o gasto diário com um paciente. Não surpresa, o gasto com os cavalos era duas vezes maior do que com um paciente psiquiátrico. Juntei todo material e publiquei no Jornal Folha de Goyaz, único que na época se prontificou a publicar a denúncia” (BERARDO, 2021)

As denúncias ao longo da década de 1980 geraram a âmbito nacional a elaboração do Projeto de Lei do Deputado Paulo Delgado, que viria se tornar a Lei Antimanicomial 10.216/01. No entanto, durante os anos de 1990 algumas mudanças já foram elencadas, no intuito de tentar transformar o Adauto Botelho em Goiânia até a sua demolição em 1997.

Já no ano de 1993 o Adauto vira notícia no Jornal O Popular, pois, ressoava uma intenção de se construir um manicômio judiciário para desafogar o hospital que também recebia presos tidos como alguma doença mental. Ainda no mesmo ano, têm-se a manchete: “Adauto pode fechar, se não mudar logo”. Na reportagem de 12 de novembro de 1993, avisava que o hospital ficara sem as verbas do Inamps por não cumprir o prazo de dois anos para uma renovação do espaço e ambiente. Isso caracteriza que as denúncias ao longo da década anterior, culminaram em medidas de reformas anteriores à lei de 2001 e que o hospital de Goiás não estava cumprindo.

Já nas datas de 07 e 10 de abril de 1994 o hospital psiquiátrico aparece mais uma vez nas páginas do jornal com o alerta de que teria ainda 120 dias para realizar mudanças técnicas e físicas sob a pena de perder o credenciamento e ficar proibido de funcionar como hospital psiquiátrico. A medida anunciada foi uma reforma parcial como primeiro passo para a reforma geral, iniciando pela retirada de grades e construção de jardins e banheiros individuais aos pacientes.

No entanto, no dia 09 de maio de 1995 em outra reportagem do jornal O Popular é anunciado o período de desativação do hospital. O prazo fixado foi de 6 (seis) meses para a desativação e construção de outra unidade de saúde mental. Em 15 de junho do mesmo ano, em entrevista o ainda diretor do hospital anuncia que ainda se encontravam na instituição 203 pacientes dos quais 50 foram para asilos, 10 para a Vila São Cotolengo e 20 para clínicas privadas.

A partir desse momento em que se inicia a desativação, o espaço do terreno e o prédio começavam a ser disputados, o que também é noticiado pela imprensa. A primeira menção se dá no dia 28 de maio de 1995, com o presidente da Agência Goiana de Agropecuária e Agricultura anunciando que pretendia incorporar o espaço do Adauto ao Parque de Exposições da cidade.

Por outro lado, em 22 de setembro de 1995 fica evidente em uma reportagem em O Popular, que o Município de Goiânia pediu o tombamento do prédio, enquanto o governo do Estado de Goiás desejava demolir, o que levou a uma contenda judicial envolvendo a prefeitura, o governo estadual, a direção do parque de exposições agropecuária e a população do bairro onde ficava o hospital que não gostaria que ele fosse entregue à Agência Goiana de Agropecuária e Agricultura.

Em 20 de dezembro de 1995, o mesmo jornal anuncia: “Venda do Adauto Autorizada e Preocupa Morador da Região” e em 29 de maio de 1996, há uma manifestação popular contra a venda do prédio para evitar que a pecuária fosse transferida para o local e em 14 de junho de 1997 o Fórum Goiano de Saúde Mental protocolou o pedido de tombamento do prédio para evitar a sua demolição, era uma tentativa de manter viva uma memória ainda que sensível.

No entanto, no ano de 1997 o prédio foi demolido e na maior parte do seu espaço foi construído o CRER (Centro Estadual de Reabilitação e Readaptação Dr. Henrique Santillo). Foram deixadas partes do muro, hoje por trás das grades da nova instituição, quem passa ali em sua maioria não conhece a trajetória, não apenas da instituição Hospital Psiquiátrico Adauto Botelho, mas das pessoas, das vidas que passaram por ali e foram marcadas, estigmatizadas.

É interessante que houve uma luta por sua memória, por sua permanência como um patrimônio sensível, mas capaz de legitimar representações de um tempo em que determinados espaços eram considerados como único destino dos não adaptados. Mas o tempo construiu possibilidades de se desvelar essas histórias, através das pesquisas, dos registros, e nos permite hoje olhar para o passado e tentar estabelecer os seus sentidos a partir dos vestígios e das narrativas levantadas por todos esses que se unem para manter viva a trajetória da saúde mental no estado de Goiás.

Referências:

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ARRUDA, Gilmar. Cidades e Sertões: O Historiador entre a História e a Memória. Revista Projeto História, São Paulo, 19, nov. 1999.

BERARDO, Rosa. Memorial. Apresentado no ano de 2021.

BORGES, Mauro. O Golpe em Goiás – História de uma traição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1965.

BRAGA, André Luiz de Carvalho. O SERVIÇO NACIONAL DE DOENÇAS MENTAIS NO GOVERNO JK: A ASSISTÊNCIA PSIQUIÁTRICA PARA O DISTRITO FEDERAL. Dissertação de Mestrado Defendida no Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e da Saúde da Casa de Oswaldo Cruz, 2013.

FILHO, Kleber Prado. & LEMOS, Flávia Cristina Silveira. Uma breve cartografia da luta antimanicomial no Brasil. In.: Contemporânea ISSN: 2236-532X v. 2, n. 1 p. 45-63 Jan.–Jun. 2012.

LIMA, Nísia Trindade Um Sertão chamado Brasil. Rio de Janeiro: Ed. Revan, 1999.

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PAULA, E.M. Divulgação Científica e Institucionalização da Medicina: A Revista Arquivos de Saúde Pública em Goiás (1951-1954). In.: Revista Brasileira de História & Ciências Sociais –RBHCSVol. 14Nº 29, Julho -Dezembro de 2022.

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ROSENBERG, Charles E. A Tirania do Diagnóstico: Entidades específicas e Experiência individual. (Tradução por Fernando Vicente) Blog do Labemus, 2020. [publicado em 01 de outubro de 2020]. Disponível em: https://blogdolabemus.com/2020/10/01/a-tirania-do-diagnostico-entidades-especificas-e-experiencia-individual-por-charles-e-rosenberg.

SANTOS, Vicente Saul Moreira dos. Entidades Filantrópicas & Políticas Públicas no Combate à Lepra: Ministério Gustavo Capanema (1934-1945). 2006. 163 f. Dissertação (Mestrado em História das Ciências e da Saúde) – Casa de Oswaldo Cruz, Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, 2006.

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Sites:

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https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2021/06/14/ditadura-militar-presos-politicos-internacao-manicomios.htm Acesso: 14/03/2023 15:37hrs.

Documentos:

ARQUIVO PÚBLICO ESTADUAL, Caixa 075 Goiânia-GO, 1955.

JORNAL, O POPULAR. Anexo do CEPAIGO Vai Servir de Manicômio. Goiânia, 03  de Junho de 1993.

JORNAL, O POPULAR. Loucura x Cidadania. Goiânia, 30 de Agosto de 1993.

JORNAL, O POPULAR. Adauto Botelho pode Fechar se não Mudar Logo. Goiânia, 12 de Novembro de 1993.

 JORNAL, O POPULAR. Adauto Botelho tem mais 04 Meses para Fazer Reformas. Goiânia, 07 de Abril de 1994.

JORNAL, O POPULAR. Adauto Será Reestruturado Antes da Reforma. Goiânia, 10 de Abril de 1994.

JORNAL, O POPULAR. Profissionais Defendem o Fim dos Manicômios. Goiânia, 11 de Dezembro de 1994.

JORNAL, O POPULAR. Termo Obriga a Saúde a Desativar o Adauto. Goiânia, 09 de Maio de 1995.

JORNAL, O POPULAR. Estado Anuncia Construção de Nova Unidade Psiquiátrica. Goiânia, 15 de Junho de 1995.


[1]https://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs2004200804.htm#:~:text=A%20emenda%203.165%20dizia%3A%20%22%C3%89,idade%20e%20de%20qualquer%20proced%C3%AAncia%22

[2] https://revistapesquisa.fapesp.br/a-sombra-da-peste-branca/

[3] https://www.camara.leg.br/deputados/3090/biografia

[4] https://www.camara.leg.br/deputados/3089/biografia

[5] Essa pesquisa foi realizada durante o mestrado na Universidade Federal de Goiás, defendido em 2011 sob o título: Os sons do silêncio: o louco e a loucura em Goiás.

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